Semelhanças que incendeiam

#emcasa, Artes, Hqs, Lançamento

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

As grandes cidades não acolhem todas diferenças, das pessoas encarnadas, e desencarnadas. Com mais tecnologia, nesse sistema, vários grupos sociais batalham por qualidade de vida – exemplo, as manifestações cada vez mais frequentes de profissionais uberizados em prol de direitos trabalhistas.

Na história em quadrinhos, Fogo Fato (2020) de Aline Lemos advém mobilidade urbana e virtualidade, e seus desdobramentos, como as questões sociais e os pés nas ruas. Em uma atmosfera cyberpunk feminista, sem imitação das estéticas estrangeiras, tendo perícia em trazer elementos brasileiros.

Nascida em 1989, na cidade de Belo Horizonte, Aline Lemos também assina suas obras como Desalienada, desde meados da década de 2000 produz publicações independentes e fornece oficinas. A estreia no universo do imagético, veio com o livro Artistas Brasileiras (2018), em que recebeu o prêmio HQ Mix 2019, na categoria Homenagem.

Com esta trajetória, levou para seu primeiro trabalho de maior fôlego, contendo oitenta páginas, uma história que busca dinamitar inúmeros clichês, sobre as cidades e seus habitantes, do dia a dia de hackers, talvez pensando na proposta de uma alusão do novo e antigo.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Fogo Fato situa a grande e fictícia cidade de Limiar, que traz muitas referências arquitetônicas de Belo Horizonte/ MG. Vias, viadutos, prédios antigos em contraste com a verticalização perene desta capital – trânsito, que invade o espaço de locomoção de moradores e visitantes.

O casal de hackers, Vitalina e Cristal, que geralmente se tratam com apelidos afetuosos, como Mina e Cris, vivem em um mundo entre o desencarnado e encarnado. Cris, que tem o gênero-neutro continua no mundo físico e em contato frequente com Mina de gênero feminino.

Ambas, interrompem seu cotidiano, em função de investigar vários incêndios que vêm acontecendo no último cemitério da cidade de Limiar. E como a empresa Ultra Gestão & Tecnologia, que tem o cartel total, está envolvida com a circunstância, ao invés de procurar ceder conforto.

Talvez um dos principais acertos da narrativa de Aline Lemos seja não apostar no convencional, desde como formata o que será contado. Embora em alguns momentos, possa às vezes buscar um demasiado fluxo de consciência, que no fim das contas se encaixa na história, de influências da ficção cientifica.

Em técnica, Aline Lemos mais tem a oferecer em Fogo Fato, foge de uma quadralização e ordenamento de falas da hq que foi convencionada. Não segue a estética do desenho americano, mesmo que em algumas vezes, quase volta praticá-lo, decidindo por um caminho autoral.

A escolha tipográfica dos balões que sinalizam as falas, consiste em uma dimensão à parte. Em alguns momentos observam-se letras do computador, outras da própria quadrinista, quando não mistura as duas, para causar um efeito gráfico, que acerta, logo proporciona um clímax em cima de clímax.

No que vale, por primar a linguagem coloquial da população mineira, move elementos dialetais, que comunicam. Entrementes, rejeita o lugar-comum, afinal suas personagens, representadas na localidade, possuem um jeito específico de expressarem pelo idioma, ou seja pensarem.

Talvez nos únicos momentos que a hq Fogo Fato, perde um pouco a malemolência, seja quando a artista recorre aos termos identitários e abreviaturas. Por mais que priorize à fidelidade de sua estética desenvolvida – confunde o público não habituado a empoderamentos e códigos.

“ […] Os fantasmas sonham com ovelhas assombradas? […] ”, neste insight com carga figurativa. Privatizações, especulações imobiliárias, vigilâncias de consumo, invisibilidades sociais, comportam esta mesma fala. Até instantes de conversas, das grandes cidades brasileiras, e no mundo.

Cris e Mina, casal que quebra tabu, vai até o cemitério buscando um fato incriminador à Ultra Gestão & Tecnologia. Limiar, está em seu limite não restrito ao próprio nome, também habitacional de encarnados e desencarnados. Eis Aline Lemos personaliza a tipografia da hq.

~ ASSISTA:

Em Fogo Fato, ocorre trocas de beijos, em que o recurso de técnica, passa realidade qual esteja desencarnada e encarnada, além de ser considerado um relacionamento inter-racial. Justapõe, por consequência, tratamento verídico ao enredo que sucede no Brasil de múltiplas cores e raças.

Semelhanças que incendeiam as grandes cidades, cada vez mais plasmadas/ dependentes da “luz” tecnológica, e um simples passeio, inclusive no cemitério vira exercício para se manter em vida ou morte. Com transportes acessíveis ou não, a hq aponta, para continuar andando.

Assim encara Alcione

#emcasa, Música, Memória, Nacional

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Representar amores, sobretudo os desencontrados, permeiam os panoramas das artes brasileiras, que nunca esconderam tendências sentimentais – e pouco é diferente ao que tange musicalidade. Ao compreender uma faixa, esbarra-se em imagens e casos, havendo sua frequência garantida.

E Vamos à Luta (1980), sexto álbum, da cantora e compositora Alcione proporciona a emoção do amor a favor da constância diária. Com 12 faixas, e de parcerias conhecidas e perpetuadas nos anos seguintes, constitui memorável, na época que a artista mais aproximava ao samba de gafieira.

Se hoje a cantora Alcione, ficou mais famosa na linha romântica, em idos da década de oitenta migrava à estilística do próprio som. Além da capa emblemática de Aldo Luiz sob fotos de Alsemo Elias, e talvez uma das mais bem produzidas da intérprete nascida no Maranhão em 1947.

Iniciando o álbum, a faixa Quadro de Ismael de Carlos Dafé e John Lemos, apesar da associação ao pintor Ismael Nery. É de outro Ismael, que a música em gingado meio abstrato toca, citando presenças relevantes e conhecidas no samba, dentre os nomes, estão João Nogueira e Elza Soares.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Ocasiona toda uma pieguiceem E Vamos à Luta, a interpretação de Alcione na música, Não Me Fale das Flores de Chico Roque e Paulinho Rezende, que convence dentro do repertório. Os instrumentos de sopro marcam presença – embora a voz da cantora seja de modo habitual destaque.

Letra de Gonzaguinha, que esbanja lucidez, a canção título do álbum, E Vamos à Luta é ainda mais atual na dramaticidade de Alcione: “Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão/ Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera e enfrenta o leão […] ”.

Mais brasileira impossível, em E Vamos à Luta, a música Deus Lhe Ajude E A Mim Não Desampare de Vevé Calazans e Nilton Alecrim, Alcione improvisa nas vogais, mesmo que não salve, os arranjos datados, muito menos o coral de apoio. A voz da cantora realiza um efeito para transitar nessa faixa.

A Ponte de Elton Medeiros e Paulo Cesar Pinheiro, constitui um dos registros fonográficos mais de acordo com o talento de Alcione. Já na letra percebe-se imagens dimensionadas, o instrumental teve um aporte favorável, enquanto a cantora capricha no enfoque boleiro-jazz-samba.

Em Meu Dia de Graça de Dedé da Portela e Sérgio Fonseca, os tambores de Marçal Filho, Zé Belmiro e Almir de Neto, harmonizam com o coral, evocando à informalidade do samba. A atmosfera da música quase fornece uma espécie de capela da Alcione, através do cavaco de Zé Menezes.

Não ficou restrito ao tempo, apenas por causa do timbre de Alcione, a faixa Circo Sem Lona de Antonio Carlos Jacofi, que trouxe um ar meloso para E Vamos à Luta. Válidos, os primeiros versos da música – depois acentuam clichê e mais clichê, que a interpretação suaviza carregando nas costas.

Cheguei Tarde de Tião Motorista, óbvio pseudônimo, acarreta uma salva de palmas aos arranjos musicais, que deixaram a voz de Alcione mais chamativa. Adiante, a letra inusitada, conta sobre um encontro regado por samba, existem também os diálogos dos participantes na música.

“Pra me fazer chorar/ Todos os dias você mata minha alegria/ Só quer brigar […] ”, atesta o boleiro enroupado de samba, Retratação de Reginaldo Bessa. Logo volta Alcione: “ […] Prazer incontido de ver meu desgosto/ É muito fácil magoar […] ”, embasada dos arranjos de Ruy Quaresma.

Tendo participação do sambista Cartola, Eu Sei é um dos duetos, antes de serem chamados de feats, da cantora Alcione que mais marca. De voz específica, o dono do restaurante Zicartola, um dos locais mais badalados do Rio de Janeiro, comenta através da letra autoral a respeito do erro e acerto.

Berimbau apimentado, letra quente, referências às religiões afro, a faixa Olerê Camará de Paulo Debétio e Joel Menezes, consiste empoderamento. A cantora acerta na interpretação em todos os 3 minutos e 5 segundos. Sambista da emoção trilha e retrilha o próprio ambiente, Alcione.

~ ESCUTE:

Resumo de Roberto Corrêa e Sylvio Son, música de arremate do álbum E Vamos à Luta, retorna às nostalgias e dilemas da infância no Norte/Maranhão. Nos minutos finais, faz referência do poema Canção do Exílio do autor Gonçalves Dias, procurando nos coqueiros as reminiscências.

Assim encara Alcione em seu principal álbum que mais tem coerência no decorrer de faixa por faixa. Manejando os componentes da cultura brasileira ao passo que estiliza os formatos do samba. Garante, portanto, a música título da coletânea: “ […] Que não corre da raia a troco de nada […] ”.

Natureza engendra mente

#emcasa, Letras

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Sensações. “ […] Achatou-se, encolheu-se, transmutou-se […] ”, página 103, ainda não superou várias cicatrizes, a América Latina, inclusive o distanciamento mascarado da renúncia. Assim revira filosofias populares, existentes antes mesmo das invasões estrangerias dizimarem incontáveis povos.

Na ficção, A telepatia são os outros (2019) de Ana Rüsche coloca luzes na desconstrução da crise geracional, e a necessidade de autoconhecimento através do expandir à consciência individual e conjunta. Durante vinte capítulos de extensão concentrada e vigorosa.

Publicando desde o ano de 2005, com o livro de poemas Rasgada, a escritora e pesquisadora Ana Rüsche também publicou Sarabanda (2007). Na prosa, lançou o romance Acordados (2007) e Do amor: o dia em que Rimbaud decidiu vender armas (2018). Além de produzir o podcast, Incêndio na Escrivaninha.

Multifacetada, a autora acumula no dia a dia da escrita, atividades como oficinas de redação, que podem ser consultadas em suas redes sociais. Também colabora na grande mídia e literária, entre essas, o texto desta obra foi divulgado de modo inicial pela Revista Mafagafo #2.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Em A telepatia são os outros, pinça Irene, muitas das brasileiras, indo de seu trabalho de fisioterapeuta, cuidando das dores dos outros, sem administrar as próprias, como aponta a trama. Até que esse arco se quebra, uma morte, de alguém que faz ela redefinir a própria vida.

Ninguém, sabe-se, atravessa imune da morte de alguém próximo. As coisas como eram, desfiguram, Ana Rüsche desvenda às complexidades de Irene, em meio às lembranças de Taboão da Serra – personagem que ao mesmo tempo se/ não torce, pelo motivo de não seguir à unilateralidade.

Há duas divisões na obra, com títulos, Partida e Desconexão. A primeira, abrange a viagem de Irene para o interior do Chile, a princípio ir em um retiro meditativo, localizado na província de Ñube. Na segunda, ficando mais do que o tempo previsto, aproveita às percepções de Santiago.

Viagens por si, mudam as pessoas. De repente a narrativa, A telepatia são os outros, em que o próprio nome faz referência ao escritor e filósofo Jean-Paul Sartre, caminha em um tipo de sabedoria antiga. Irene que achava apenas iria meditar em uma paisagem ádvena está em meio ao roubo de identidade imaterial.

Um fermentado, que causa efeitos narcóticos tem a fórmula levada para os Estados Unidos. Apelidado de “chá” pelos frequentadores do retiro meditativo, vira espécie de produto de escala comercial. Considerado por alguns um narcótico, por outros a porta da percepção máxima.

María, Lucía, Jorge, Nicolás, Juan, Paco, William Frederick Dogde, e o próprio fermentado. Um dos principais personagens dessa narrativa de Ana Rüsche, por sua vez conduzindo, algumas das imagens mais inequívocas da história, igual no capítulo sete de nome “Mente Na Minha Mente”.

Elabora a escritora, imagens em A telepatia são os outros, como essa: “ […] Meditam caladas. Idosas, antigas alunas, professoras, camponesas. Trouxeram flores, mudas de árvores, legumes, lenços bordados, abraços. Durante os últimos dias, o forno da escola estralou num excesso de lenha, bocados de comida quente, tecidos coloridos […]”, página 46.

A relação da natureza e o fermentado entre aquelas mulheres camponesas, como marca a narrativa já foi ameaçada inúmeras vezes durante a humanidade. Tendo menções em todos os momentos das relações pautadas no virtual, um plano começa a ser elaborado, um pé frustrado, outro ambicioso.  

Logo o personagem de Paco, é um grito intempestivo da revolta, rivaliza com o William Frederick Dogde. Tesão e poder, entre os dois homens disparam, enquanto o fermentado, deixa de ser uma porta de autoconhecimento da população rural do Chile. Ana Rüsche areja o narrar.

ASSISTA:

Fermentado junto com canela em pau, deixa de ser recebido pelos corpos de seus adeptos, em um recanto em meio a natureza, mais adiante causando um encontro do prazer de Irene que não mais se tocava, e a vontade de pesquisa. Em meio ao plano, ora delírio, ora orquestrado por Paco.

Natureza engendra mente, dentro da narrativa A telepatia são os outros, sublinhando como a mesma passa por agressões. Sabedoria e ingenuidade são postas em paralelo, de modo proposital, caso o próprio texto tivesse bebido o fermentado, a pura sinestesia, a pura morte, a pura vida.

Mira Carlos Moreira

#emcasa, Arquitetura, Artes, Memória

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

Paralização de uma cena, um movimento, uma situação, um contexto, existe na arte da fotografia. E como refrear uma megalópole das proporções de São Paulo através das lentes? Muitas pessoas que dispõem de retratarem a “selva de pedra”, vêm passando por essa contradição.

O principal cenário das fotos de *Carlos Moreira, fotógrafo que esteve em atividade por volta de quatro décadas, são as vias e escadas paulistanas. Por mais que haja o elemento humano, o destaque fica para como as construções do maior espaço urbano da América Latina impulsiona afinidades.

Associado ao fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson, Carlos Moreira remarcou, a expressão do espaço urbano na fotografia. As pessoas que aparecem em suas lentes, com frequência demostram ares posados, mesmo em fotos distanciadas, questionando a veracidade imagética (caso exista).

Mesmo quando suas lentes, das preto e branco até as coloridas, focavam fora do espaço urbano de concretos armados da capital paulistana. Locais e personalidades carregavam uma relação do lugar, que o fotógrafo nasceu no ano de 1936, podendo sua produção ser entendida nessas perspectivas.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Fotojornalismo americano e francês, influenciaram as fotos da fase em preto em branco do artista, que a partir do ano de 1964 decide pela fotografia. Embora, com o passar dos anos, não tenha desvencilhado do estilo que adaptou na rotina à brasileira, remanejando traços físicos do país.

Durante os anos noventa inaugura em parceria com Regina Martins, a Escola de Fotografia M2 Studio. A foto de Carlos Moreira, ganha mais cores ao passo que o foco torna mais ainda São Paulo, fazendo registro arquitetônico em uma cidade que desmorona sua história todo dia.

Se o passeio da fotografia de Carlos Moreira em meados dos anos sessenta, era a região central de São Paulo. Entre as localidades mais retratas estão a Sé e República, com o tempo busca percorrer o centro expandido, as calçadas do bairro Liberdade aparecem em fotos e mais fotos.

Com isso, a estética fotográfica de Carlos Moreira sai da convenção do fotojornalismo, que tanto bebeu, entrando de vez na memória arquitetônica. A profundidade adotada em várias fotos, além da construção, o registro do paisagismo local, isto é da vegetação escassa de São Paulo.

Ainda quando viajava fora do país, as fotos que clicava, lembram à cidade de São Paulo, era como se o artista quisesse de maneira proposital parodiar o fato, que torna uma cidade tão idêntica com a outra, sendo pequena, média e grande. No limite que torna uma urbanidade igual.

Graduado em economia pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, o artista não quis seguir as tabelas e gráficos que exige a profissão. Malgrado uma visão econômica, ironicamente, pode ser revertida de sua fotografia, além da perícia do foco, maneja possibilidades com obturador.

A relação técnica em Carlos Moreira, acarreta proximidade ao fotojornalismo, a questão do movimento era capitado através da estática. O fotógrafo, assim decreta ao público, um invento daquele movimento que não em necessidade aconteceu frente à câmera, inclusive na fase colorida.

Físico nacional, fuligem, fome, garoa, a cidade de São Paulo, em todas as suas contradições, sobretudo de suas localidades turísticas, ou que se tornaram locais em que visitantes procuram frequentar. A cidade expõe por meio dessas lentes, sem quaisquer receios de se exibir.

Parcelas desses locais paulistanos do centro são possíveis de serem identificados. Região do Teatro Municipal, Viaduto do Chá, escadaria do Vale do Anhangabaú, em diferentes épocas dos anos. Calor e chuva, em todas as estações, as lentes de Carlos Moreira detiveram transeuntes de São Paulo.

~ ASSISTA:

Em determinada maneira, o próprio personagem do fotógrafo, que afinal proporciona o olhar para a fotografia, era um passante à medida que compreendendo o movimento e estrutura. No que a fotografia exerce, logo como impacta o cotidiano das pessoas nas geografias urbanas.

Mira Carlos Moreira de modo intrínseco à semelhança da fotografia com o plano civil, da cidade que nasceu, e com o passar dos anos foi deparando suas ruas, avenidas, escadarias e afins. Um dos ficcionistas da fotografia – entendeu a postura de ficcionar, ou seja fotografar.

< *Carlos Moreira faleceu aos 83 anos, vítima de câncer em 2020 >.

Permite obscenidade

#emcasa, Lançamento, Música, Queer

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

Arte: Jeferson Lorenzato

Quem é artista na área de interpretação/ composição no Brasil, geralmente não canta o que quer. Foi convencionado, através do meio musical e também do público uma Música Popular Brasileira, isto é, MPB que costuma mimar – boa parte das pessoas consumidoras.

No clipe Tomara, versão remix (2020) de Linn da Quebrada ft. Davi Sabbag segue oposição ao mimo, fazendo uma trajetória peculiar e harmônica durante feitura. Pouco podendo, dissociar imagem da música, através de uma direção que conseguiu trazer um ligamento do extremo ao outro.

Desde o clipe Enviadescer (2017), a cantora Linn da Quebrada vem firmando seu espaço com liberdade de gênero na cena musical, sem abrir mão de um estilo que dialoga com o dia a dia e ao mesmo tempo depurado em suas letras. De lá pra cá, saiu com singles e eps, além do seminal álbum Pajubá (2017).

Ex-Banda Uó, o cantor Davi Sabbag foi responsável por momentos remodeladores da música, sedimentando ponte ao tecnobrega e pop. Contribuiu, ao lado de Candy Mel e Mateus Carrilho, com eps e álbuns, Me Emoldurei de Presente Pra Te Ter (2011), Motel (2012) e Veneno (2015).

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Com direção de Indigno Kid, pseudônimo do produtor e editor de vídeo Alex Girardi, Tomara abusa do cromaqui (técnica de efeito visual que consiste em colocar uma imagem sobre uma outra) – tudo é exagero, pouco deixa de ser orquestrado. Linn da Quebrada por cima de Davi Sabbag em uma cama redonda.

As batidas aumentam, um animal de estimação do lado esquerdo da tela deixa Linn da Quebrada e Davi Sabbag com mais intimidade. Ambos trocam de posição, algumas vezes, entre caras e bocas, a cantora atrás do cantor levanta o dedo indicador, que brota um feixe azul.

Enquanto na sequência de Tomara, Davi Sabbag abre a boca para engolir, esse brilho vindo de Linn da Quebrada. Desde os primeiros minutos, consiste perceptível o trabalho de Edy Hoshi, sobretudo o uso de lentes de contato do estilo sclera black que calharam entre participantes, uma corporatura singular.

Brisa ou outra dimensão, do olhar de Davi Sabbag, produz um seguir da mesma cama, só que voadora, aliás flutua no espaço-tempo? Logo para se chegar, na imensidade, solta Linn da Quebrada: “ […] Rapidinho pela rua/ Nem tirava toda roupa/ Quase nem ficava nua/ Sua conversa afiada […] ”.

Entrecortadas, as imagens da cantora Linn da Quebrada vão se multiplicando à medida que Davi Sabbag acompanha, ainda sem cantar. Uma hora ela está na cama voadora, noutra aparecendo em vários frames, até que o “veículo dimensional” parece estacionar, lá vem refrão.

Depois da entrada, Davi Sabbag surge cantando meio baixo, talvez romântico, na verdade estilizando interpretação: “ […] Eu não queria que chegasse só com a vara, meu bem/ Uma lambida no zóinho é tão gostoso também […] ”. O corpo precisa ser mordido, como enfatiza a letra e clipe.

Peixes e borbulhas, de repente a cama voadora decola passando por uma série de colunatas. Em outra moldura, Davi Sabbag ganha asas de morcego, e Linn da Quebrada monta nele, pegando carona, passando por manequins cinzas, questiona a canção, farinha do mesmo saco.

A fotografia e direção de Tatá Guarino cede mais combustível à viagem proporcionada dos versos-quadros. De modo original, a versão advém da faixa doze álbum Pajubá, tendo outro trabalho de mixagem e masterização de Rodrigo Coimbra, que recebe o clipe.

“ […] Entra e sai, entra e sai, entra e sai, sai, sai […] ”, canta Linn da Quebrada, que desponta em algumas cenas pulando, outras de volta ao voo da cama junto de Davi Sabbag, o refrão se mistura com demais partes da canção. Na casualidade, o clipe Tomara literalmente está prestes a explodir.

~ ASSISTA:

Dentes em roupas intimas, como propõe a música, e as próprias feições de Linn da Quebrada e Davi Sabbag, mais do que nunca gracejando. Avoluma, no presente, a curtição que só tende a procura do veneno da consciência, cenas em recaimento que apareceram antes, intercalam-se.

Permite obscenidade Linn da Quebrada em um cenário que o canto prioriza um resguardo desnecessário. O clipe Tomara demostra que é possível conciliar vital pajubá, crítica contundente, bom humor, crível música e divertimento visual. Confortável no giro do globo ora globular.

Concilia Milenna Saraiva

#emcasa, Artes, Lançamento

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Milenna Saraiva

Arte: Jeferson Lorenzato

O retrato na história da humanidade é um conjunto de respeitos. Em primeiro momento, de quem é artista, ao escolher o que será retratado de modo geral estando próximo aos traços existenciais, da própria pessoa a figurar um tipo de reflexo, e não muito distante da aquisição da obra.

 

Nos retratos que fazem parte da série, Empaths (2019-2020) da artista plástica * Milenna Saraiva, surge a necessidade do relacionar com alguém por alguém. As cores quentes, trabalhadas com auxílio do alicerce da fotografia aproximam ativistas nacionais e internacionais.

 

De São Paulo mudou para Califórnia para ser artista, não tendo aos 18 anos (como todo mortal) certeza qual área zarparia entre dança e artes plásticas. Graduando na Fine Arts degree pela Santa Monica College, fez ainda a convite da universidade especialização em pintura por meio do The Mentor Program.

 

A influência da cultura pop, dos tempos que passou na terra de Hollywood, ainda ressoa na produção atual da artista. Enquanto o objetivo de descrever a personalidade humana, recorre através de artifícios, por mais que não pareça, existindo um ar abstrato com o tratamento da pigmentação.

Milenna Saraiva gif

Arte: Jeferson Lorenzato

Marielle (2019), acrílico e spray sobre tela 90X90, realiza alusão a política Marielle Franco, morta em um assassinato junto do motorista Anderson Gomes no ano de 2018, levantando injustiças e polarizações no Brasil. Sem ainda quem seja o indivíduo e/ o grupo responsável penalizado.

 

No quadro do conjunto Empaths, Marielle de black power e tiara amarela, com efeito visual pisca o olho esquerdo. A boca meio cerrada, passa a necessidade, de espera de um falar por entre os dentes, daquilo que precisa ser dito, borrões avermelhados, compõe esta obra de arte.

 

Outro momento, acrílico e spray sobre tela 50X50, a obra Semente (2020) traz a figura de Marielle Franco, desta vez está entrevendo para cima. Um olhar, baseado em uma foto, que apresenta a morosidade do tempo diante da justiça, embora esteja com um fundo de pictórico-frio-quente.

 

Já os olhos da socióloga Marielle estão mais tristonhos, apesar da contemplação para o firmamento, dentro do interpretar, que pode ser realizado. Se na obra antecessora a vista era equiparada, de outro modo, olha agora só para cima, levantando o pescoço mais à amostra.

 

Acrílico sobre tela 50X50, Tchacka (2019) apresenta a drag queen homônima com mais cores do que nunca. Como a mesma, vivida pelo artista Valder Bastos, se intitula em seu site; “Rainha das Festas”. Temperando a obra de Empaths, a personagem graceja entre poses e risadas.

 

Perfilado, o retrato de Tchaka, dá a impressão que já encarou o público, outra vez preste à admira-la. Um acerto de contas, através do humor, dos dilemas vividos por todas as pessoas, alavanca da tela. A drag queen também aprecia o arco-íris em meio às várias pinceladas na pintura.

 

Uma obra antes da formatação da série, acrílico e spray sobre tela 40X60, Glenn (2018) representa o escritor e jornalista americano, Glenn Greenwald. Desde o ano 2005 vive na cidade do Rio de Janeiro, sendo o centro focal da imagem, suas espessas sobrancelhas, e um jeito multifacetado do olhar.

 

Com as mãos no queixo em Empaths, o retratado ludibria, indicando por outro lado uma posição de conforto. Talvez uma estratégia com algo que esteja pronto a revelar, os olhos observam inúmeras direções, a calma prevalece, não tendo determinada possibilidade de ser refutada.

 

Em Malala (2019), acrílico e spray sobre tela 80X100, indo ainda mais para o eixo de personalidade internacional, se vê a história da ativista ao direito da educação e criança, laureada com o prêmio Nobel. Um dos quadros que tende a maior teatralidade ao mesmo tempo calcado no real.

 

Um dos olhos de Malala Yousafzai está tampado em vermelho, enquanto a jovem olha para fora da tela, por baixo de seu turbante. A face é circunspecta, quase lançando a quem admirar, que o direito da educação sucede por questões de gênero. Compenetração incide Empaths de Milenna Saraiva.

~ ASSISTA:

Ditaduras, mortes, pobrezas, perseguições, surtos, injustiças, fomes, desempregos – capitania dessas barbaridades, o desrespeito. A artista utiliza desses elementos, para lançar luz sobre as pessoas que utilizam suas vidas para causas humanitárias, ou seja ativistas de diferentes propósitos.

 

Concilia Milenna Saraiva o retrato, que deixa de ser uma bolha de artivismo, ou ainda interpretado em uma corrente mais clássica nas artes plásticas como apenas entretenimento. Proporcionando, a seu modo de técnica e conceito, um contemplar em reflexão de tempos nebulosos.

 

< * Milenna Saraiva participa da exposição de arte online Artluv Experience, tendo cerca de 60 artistas, indo até 30/ 08. Trinta porcento da renda dos ingressos vendidos será doada para uma instituição beneficente >.

Luiz ginga Melodia

#emcasa, Música, Memória

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

Luiz Melodia Fadas

Arte: Jeferson Lorenzato

Via de mão dupla: a composição empresta da música. Das duas expressões, quem é artista musical nutre. Na composição passa a mensagem, da música vibra idem, talvez o encanto esteja nesse timbre, sendo que atravessa o corpo da pessoa distraidamente ou atentamente, eleva.

 

Na música, *Fadas de Luiz Melodia encontra o espectro do questionamento do masculino em contemplação do divergente, que não em necessidade seja o feminino, talvez fluidez de gênero. Durante a carreira do músico, teve mais intérpretes mulheres, que releram essa questão.

 

Luiz Melodia (1951-2017) nasceu no Rio de Janeiro, desde o primeiro álbum, Pérola Negra (1973) conseguiu lapidar poesia e canção. Entendendo a sutileza das duas artes que exerceu com infinitude – os elementares da natureza, de um país que leva no nome menção da flora esgotável.

 

Dentro da composição do morador do Estácio, que tornou essa região carioca, conhecida por grande parcela do planeta. A observação do meio-ambiente, ganhou requebrado próprio misturando, na musicalidade, o improviso do jazz, o balanço do soul, e um samba brasileiro, que baila de jeito, sem jeitinho.

Luiz Melodia Fadas Gif

Arte: Jeferson Lorenzato

Fadas apresenta 5 estrofes e 20 versos, que na música, passam por repetição, sobretudos nas versões das décadas seguintes. Como se o propósito fosse pegar carona nas próprias asas agitadas desses seres mitológicos, vindo das culturas célticas e germânicas, na paisagem brasileira.

 

O bandolim provoca um clima mais risonho-dramático nesta canção do terceiro álbum do artista de título, Mico de Circo (1978). Essas fadas apresentam lábios e cinturas grossas, estando perseguidas ao passo que raras de serem admiradas como às visitas sem agendas dos bem-te-vis.

 

“ […] As ilusões fartas/ Da fada com varinha virei condão/ Rabo de pipa, olho de vidro/ Pra suportar uma costela de Adão […] ”. Luiz Melodia, rima as vogais, ignorando as consoantes, meio Madame Satã e Ismael Silva, Torquato Neto e Roberto Carlos, que inclusive recebem citação no encarte “Tributo Rememorado e Atualizado”.

 

Também o pandeiro subsidia a canção Fadas, não equivale batido, acariciado durante a minutagem da última faixa do álbum. As cordas vão recebendo o prato do instrumento, tem um pouco do choro, um choro que quem é do Brasil conhece de cor, mesmo querendo esquecer.

 

Cimentas, as fadas, voam sem visão e direcionamento na letra, embora saibam onde querem chegar, mesmo com o dia a dia aberrante. Inventam, sonhando só, por mais que seja partilhado o mesmo sonho, existe um grau de característica, naquele horizonte de potestade visual.

 

Pouco atropela o que busca no canto, deixa competente à letra e musicalidade, irem guiando os ouvidos – ao saber da potência vocal, Luiz Melodia vai conversando aqui, ali e acolá. O instrumental da gravação realizado com perícia, observa a hora da entrada e saída, exatos da voz interpretada.

 

Em determinado momento, Fadas podem não ser mais esses seres da natureza, quem pegou carona adquire asas durante o passeio, alçando: “ […] De passo a passo, passo […] ”. No voo se observa em mapeamento dessa localidade, que os elementares se originam, sem qualquer crédito.

 

A música não traz ao público rigor, talvez um pouco de sentimento de evasão. Seres invisíveis, causando no eu-musical ou eu-poético uma dual miragem, próxima e distante. O real chocando com imaginário, ambos precisam, alimentar um do outro, mesmo com todas às peculiaridades.

 

Borboletas ou fadas, são questionadas desde os primeiros segundos da música, de outro modo almeja-se que sejam visíveis. Várias espécies de invertebrados, por todo caso estão sofrendo de extinção, mais até que outros entes urbanos, um olho de vidro como afirma a canção pode indicar alguns caminhos.

 

Os trajetos são incontáveis, nessa excursão levantada pela faixa Fadas, o voo pode ser alto ou rasante. Enquanto orientado em qualquer região, o ar erguido desses seres – fadas, borboletas, bem-te-vis, artistas, públicos, desta vez âmagos desses. Musicaliza a poética, Luiz Melodia.

~ ESCUTE:

Manejo das palavras com inúmeros sentidos virou uma das máximas do som de Luiz Melodia. O “bem-te-vi”, por exemplo, na faixa é lido como cumprimento rotineiro, ora um dos seres trazidos para o vórtice do cantar do artista, em que a música está desde Oswaldo Melodia à Mahal Reis.

 

Luiz ginga Melodia na atmosfera da música do idioma português, criou inatas imagens dentro da composição, sem deixar de lado à musicalidade aprazível. Dos limites, fez uma outra abordagem do fazer sonoro, usando das influências ao passo que torrente de seguidores – outorga canção.

Preconiza Raul Bopp

#emcasa, História, Letras, Resgate

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

Cobra Norato Raul Bopp

Arte: Jeferson Lorenzato

Mais do que atual, o verso do poeta Raul Bopp (1898-1984), tendo a primeira publicação no início da década de trinta do século anterior, parte II: “ […] Começa agora a floresta cifrada […] ”. Diante disso, a poesia épica recebeu outro baluarte, desta vez com o foco nas questões ambientais.

 

* Cobra Norato e outros poemas (1978) de Raul Bopp, define um barroco-sintético, escalonando cada uma das palavras e dimensões. Excede uma leitura, apenas da perspectiva folclórica, por si só já enriquecida, indo justamente para brigas do animal e humanidade, da mata e urbano.

 

Nascido no Rio Grande do Sul, nas últimas décadas do século 19, Raul Bopp talvez dentro da poesia modernista seja um dos que menos venha ganhando atenção. Morando no Rio de Janeiro, ingressou na carreira de diplomata e colaborou para inúmeras publicações como jornalista.

 

Viajou, também morou, em vários países e regiões brasileiras, levando literalmente ao “pé da letra”, a questão da figura da pessoa que compõe poesia e o ar andante. Em uma dessas andanças, conheceu à floresta Amazônica, que lhe aguçou a ideia de um poema ambientado no verde.

Cobra Norato Raul Bopp Gif

Arte: Jeferson Lorenzato

Segue, Cobra Norato em parte uma tradição dentro da poesia épica feita no país, antecessores como O Uraguai (1769) de Basílio da Gama, Caramuru (1781) de Santa Rita Durão e Guesa Errante (1858-1888) de Sousândrade. Ocorre, ao passo que, busca uma economia na extensão, e um narrar-poético, hibrido do eu-floresta.

 

Dentro do modernismo houveram artistas que elaboraram poemas épicos. Romanceiro da Inconfidência (1953) de Cecília Meireles, Juca Mulato (1917) de Menotti Del Picchia, Vida e Morte Severina (1955) de João Cabral de Melo Neto, apenas citando os nomes mais conhecidos.

 

Em Cobra Norato, não observa apenas uma narração de uma lenda nacional, em que a cobra-grande se modifica em rapaz e vice-versa. Habitando o fundo do rio, ou seja está ciente de tudo que acontece já que o lugar serve de proteção para toda a fauna e flora, no crepúsculo sendo humano.

 

“ […] Esta é a noite de hálito podre/ parindo cobras […] ”, parte IV, a visão do eu-poético o tempo todo confronta à floresta, enquanto a mesma também replica. Onomatopeias, marcações de diálogos, experimentações coloquiais, incisões de um fim e começo de fragmentos em algarismo romano.

 

A verve de Raul Bopp, não tem receio de ousar, dentro do poema que o autor mais revisou, fazendo alterações. Durante mais de quatro décadas, apareceram dez publicações, o texto assim como a floresta que alimenta foram alterando até chegarem nesta ossatura.

 

Dividido em 33 segmentos, o poema vai oxigenando a floresta, que se torna da mesma maneira, invólucro de Cobra Norato. Em seus primeiros fragmentos, há uma lentidão, instaurada na leitura, por exemplo assim: “ […] Águas defuntas estão esperando a hora de apodrecer […]”, parte VII.

 

Adiante, o poema vai ganhando novo ritmo, às vezes mais acelerando quando a criatura toma forma humana, ou insinua uma humanidade. A fauna da floresta o tempo todo aparece, não se sabe onde o andejo, irá ou quer chegar, nesse solo comentado nos versos como sem fim.

 

“ […] O mato é um acompanhamento […] ”, parte XXVIII, perdido nos objetivos de vagar na floresta, que teve uma relação conflituosa e harmônica. Logo os personagens da obra são esféricos, aplicando à grosso modo o pensamento de E. M. Forster, o poema abre interpretações.

 

A edição apresenta uma sessão dois, com mais 25 poemas, que justamente dialogam com técnicas e assuntos propostos em Cobra Norato. É como se a dimensão da obra fundamental do poeta abarque outros de seus textos poéticos. O coração da floresta brasileira escuta Raul Bopp.

~ LEIA:

Etnicidade, preconceito, exploração e diferenças sociais. O conjunto de poemas dessa área do livro engendra por essas temáticas, entre destacáveis são Herança, Dona Chica, Monjolo e Favela, apesar de alguns defeitos tipográficos na hora da impressão do livro que pouco comprometem.

 

Preconiza Raul Bopp do ecossistema em um período que a poesia, sobretudo no gênero épico do idioma português estava mais aferroada em questões do plano histórico, social e lírico. Eis que antropomorfiza à linguagem específica de um dos principais e devastados pulmões do globo.

 

< Ano do lançamento original foi 1931. Edição apurada é da extinta editora Civilização Brasileira, com nota introdutória de Antônio Houaiss e ilustrações de Poty >.

Eriça Caetano Brasil

#emcasa, Música, Nacional, Queer

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

Caetano Brasil Musico

Arte: Jeferson Lorenzato

Choro, também tido como chorinho, e o penteado moicano convivem? O gênero musical que nasceu no Brasil em meados do século 19, ganhou a esfera chamada terra, com influências da música africana, da mesma maneira à crista que teve origem em populações indígenas da América do Norte.

 

No álbum, Cartografias (2019) de Caetano Brasil, o choro é revigorado com um toque jovial entre polivalência e contemporaneidade. Sem ser cansativo, consegue fazer um som que evita recorrer ao passado como acostamento, apontando alguns elementos musicais para seus mapas.

 

A pegada da obra ocorre sem esquecer de diálogos com quem solidifica/ populariza o choro, como Chiquinha Gonzaga (1847-1935) e Pixiguinha (1897-1973). Entre artistas que fazem parte do projeto, principiado dois anos antes de ser concluído estão Adalberto Silva, Guilherme Veroneze e Gladston Vieira.

 

De 8 faixas com às mais variadas minutagens, desde músicas que ultrapassam oito minutos, outras quase vinhetas, caso não fosse alguns segundos assomados. Em direção, Caetano Brasil, se apresenta em cada instrumental – clarinetista, saxofonista e compositor que interage pelo YouTube, exibindo o corte estiloso.

Caetano Brasil Musico gif

Arte: Jeferson Lorenzato

Gandaia, é a faixa que abre Cartografias impondo uma apreciação rápida, não só pela forma do artista e outros músicos interpretarem, ademais da extensão da própria música. Os instrumentos, assim como o manejo em si, transparecem uma velocidade queer e urgente de festar.

 

Em paralelo com as danças folclóricas e animadas do oeste da Bulgária, composta com música em metro, surge a canção homônima, Kopanitsa de teclas inicias ambivalentes, e sopro sensual. É impossível expressar uma nota de choro, não cometendo uma sensualidade acidental.

 

A ilusão do mar, desse homem marítimo, na faixa Mareante, causa observação dos primeiros segundos solos. Salgado e agudo, o tamborilar paulatinamente aumenta, grandeza brigando com a vida, indo e voltando como as ondas, potência de uma das irretocáveis canções do álbum.

 

Flores, não podem ser deixadas de lado, Hanami é um costume japonês de contemplar a intimidade da natureza, que recebe o título dessa faixa. Pétala por pétala, nota por nota, vai se aproximando, quem contempla passa pela contemplação, a contemplação passa ao contemplar em Cartografias.

 

Já a música, Bodas de Choro consiste à virada do álbum, alterando o rumo procura ser imperativa e sincopada. Uma festa ou banquete que celebra a união do intérprete e seu som, assim transmite algumas coordenadas geográficas de algumas regiões, que não sejam possíveis acessos nos pratos finais.

 

Virou faixa do álbum de Caetano Brasil, uma das plantas que mais é cidadã do mundo chamada de Cardamomo. De sabor parecido com gengibre, é uma espécie de vage apresentando sementes adocicadas, na canção acarreta essa mistura sinestésica, um pouco saboreia, um pouco instrumenta.

 

Desordem, de tão orquestrada, a faixa Embaraçada encontra um centro, faz parar nos ouvidos. No choro se diz muito, sem falar, eis a falação acontece através dos instrumentos, os de acesso, cedem espaço para aqueles que mais chamam atenção nas partituras do álbum Cartografias.

 

Se tem permissão de ouvir por meio do instrumental o idioma dos Rom e dos Sintos, povos nômades que, em geral tem a designação de ciganos, no single Romani. Teclas, pratos da bateria, o suspirar cada vez mais necessário de não estar parando em um mesmo lugar em estado andante.

 

Um intervalo de uma música e outra, por mais que não chega um segundo, favorece necessidade de repetição da caminhada. Os botões e aberturas do clarinete e saxofone precisam do fôlego deste tipo músico trazendo saliva e sopro, ou seja vida/ alegria. Caetano Brasil conquista em Cartografias.

~ ASSISTA:

Revelando uma musicalidade, já que fora gravada a obra em sessões de apenas um dia para recriar o clima de ao vivo, abrange uma instrumentalização, logo arranjos melódicos bem ensaiados e compostos. O álbum apresenta mixagem de Ricardo Itaborahy e masterização de Nando Costa.

 

Eriça Caetano Brasil com uma atitude e topografia musical que discorrem com seu tempo, a medida que origina personalidade própria na feitura do som. De modo orientado, engloba os estilos da folclórica oriental, latina, leste europeu, jazz e afins. Choro invente, moicano permaneça.

J. Fernandes rubrica

#emcasa, Artes, Resgate

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

J. Fernandes Artista Plástico

Arte: Jeferson Lorenzato

Uma tela sem a tinta é vaga. Depois de composta uma representação imagética, o quadro ainda precisa manter determinada circunstância indefinida, que leve quem contempla para o mistério, questionamentos seguintes tornam, aquele óleo ressecado em algo mais a reproduzir.

 

Figurativo (1988) de *J. Fernandes embala o enigma que um quadro carrega consigo, abrindo para variadas interpretações. Diferente da maioria da corrente das artes plásticas contemporâneas, assim desenvolve aquele equilíbrio entre parâmetros técnicos, práticos e conceitos.

 

Crava na parte de baixo do quadro, a estampa do pintor, sem querer ofuscar o espaço da obra. Esse vestígio, de modo próprio, não passa da assinatura, que o artista se atribui, seja remetida sua autoria, em contraponto das outras cores utilizadas, o nome está em preto em cima da data.

 

Meio triângulo de um braço talvez humano, vegetal, móvel, pássaro, comprova o registro. O século 20, logo teria sua última década, enquanto os seres retratados neste quadro olham com dúvida, uma dúvida coletiva – aliás encaram, em ironia, parecem figurar quem continua em sua frente.

J. Fernandes Artista Plático Gif

Arte: Jeferson Lorenzato

O quadro, Figurativo de J. Fernandes na primeira observação distorce planos. O artista justamente, brinca com essa característica, fazendo ora forçando, quem admira conviver com uma técnica apurada de pintura, cada pincelada sendo refeita até chegar em um auge pictórico.

 

As retinas perdem encadeamento ao entrar no quadro, sem saber para que lado apoiam a investigação artística. Olhando assim, se intensificam, essa projeção, das cores, verde e azul, intercâmbio de ambas, que se misturam do último plano ao primeiro plano, confundido à perspicácia.

 

Três pombas – sobretudo, modelos sempre presentes em demais quadros do pintor, estas marcam à direção focal desse quadro, duas na parte inferior, e outra oposta. Na parte inferior, os animais estão próximo aos corações, que pulsam, e uma única ave, aninha dois cabelos esvoaçantes.

 

Enquanto duas dessas pombas apresentam uma espécie de coroa de três pontas, uma possui apenas duas. Como se o objetivo em Figurativo, fosse em mostrar um pouco desse ente diferente, que não se sabe quase nada de alusivo no quadro, seu olho carrega pinceladas retintas.

 

Outra dúvida: o animal preferiu ser só ou acabou se tornando em função dos outros seres? A pintura de J. Fernandes, não quer certezas, planta outras direções, por mais que pareça simples, amálgama uma feitura complexa como é a humanidade, de maneira alguma hermética.

 

Quando a observação não sofre interferência do próprio artista, a relação das duas mulheres no quadro oscila. Pode se levantar que sejam namoradas? Casadas? Amigas? Tem alguma outra ligação? Irmãs? Sogra e cunhada? Mãe e filha? A tonalidade dos cabelos é grisalha ou algum reflexo?

 

No quadro Figurativo, uma mulher está na frente da outra, a que se vê o rosto completo encara para fora, pendendo a cabeça. O visto, talvez lhe causava algum espanto, sem necessariamente, apresentar uma fisionomia estereotipada, veste uma roupa vermelha até o pescoço.

 

A boca desta mulher permanece cerrada, como se quisesse contar algo que não tinha a possibilidade, revestindo esse fator em seus olhos pesados, na formação do nariz e queixo pronunciado. Um segredo protegido por pombas, nem a outra mulher que acompanha deva saber.

 

Quiçá o maior mistério do quadro fica restrito ao reverso desse feminino, os cabelos se reúnem, os olhos e as sobrancelhas mais projetadas. Quase, assim geram um vinco, o começo do nariz, provocando uma semimáscara (coincidentemente) que forma um menos acentuado topete.

 

Nua, ora com roupa de alcinha, esta mulher que de repente pode estar se dissociando de si no quadro. As mulheres sempre foram retratadas pelo olhar do artista, apresentando traços iguais, ou seja uma mesma sergipana. Examina J. Fernandes, que busca entender em Figurativo.

~ ASSISTA:

Dimensões de 60 cm x 100 cm colocam no quadro mais amplitude, como seus mistérios pudessem engolir uma matéria única. As pombas, as mulheres, as cores, as roupas, os registros, tudo desse retângulo, focado no retrato-primitivo, na raiz da representação humana.

 

J. Fernandes rubrica seu espaço nas artes plásticas regionais, nacionais e internacionais à medida que pertence acervos particulares e de instituições privadas e governamentais. O artista entendeu, a importância de acarretar em suas obras um grau de incógnita. Marca intencional do olhar.

 

< *J. Fernandes, também conhecido como José Fernandes ou Zé Fernandes. Faleceu em 2020 vítima da covid-19 >.