Maldade que paralisa

#emcasa, Cinema, Nacional, Resgate

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Quando, por uma infinidade de fatores, o cérebro de alguém não consegue decodificar uma realidade hostil entra em estado catatônico. Pandemias, guerras, crimes acarretam em várias pessoas essa mesma reação psicológica, de não continuar interagindo, da maneira semelhante de antes.

No filme Ódio (1977) de Carlo Mossy levanta questionamentos sobre revolta, perversão e liberdade seletiva. Durante 102 minutos, em vários momentos, o choque se instaura, não pelo explícito da violência, de outro modo através das sugestões de um crime praticado entre pessoas conhecidas.

Estupro, pedofilia, morte são o que a Família Barcelos, suporta na primeira meia hora de longa, ao passo que presencia, o idealista advogado e professor de direito Roberto Barcelos. Vai do auge, a ser o único sobrevivente desse massacre, realizado por empregados da fazenda que cresceu, com história original de Talita Valle.

De trilha sonora encorpada, igual à própria narrativa, o filme tem roteiro de Sanin Cherques, Ismar Porto e Carlo Mossy. Com nomes no elenco, Carlo Mossy, Átila Iório, Ana Paula Lombardi, Celso Faria, Cleia Simões, Estelita Bell, Fátima Freire, Sergio Guterres, Fernando Reski e demais pessoas.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Pouco sendo novidade desde a estreia de Ódio, diretores atuarem como protagonistas de suas produções. O filme possui artes visuais compostas por Rudi Böhm, que potencializam a complexidade da história, narrada em diferentes frentes por Carlo Mossy, taxado apenas de “O Rei da Pornochanchada”.  

Com interpretações cabais, o longa-metragem foge de um superficial banho de sangue, trazendo um enfoque antropológico do crime. Já que Nestor, Geraldão, Léo e Souza, cometeram todas as violências, frustrados pelo viés social, ou no que acostuma no país, precariedade de vida.

Larga advocacia e academia, depois de receber alta do hospital, Roberto (Carlo Mossy) começa a perambular pela cidade do Rio de Janeiro, não apresenta forças de voltar à fazenda, onde aconteceu o crime que matou sua mãe (Lídia Vani), irmã (Ana Paula Lombardi), pai (Jayme Barcellos) e a funcionária Almerinda (Cleia Simões).

Vagando, procura outras regiões da cidade que evitava, apesar de sempre fantasiá-las. Em uma birosca de sinuca, no filme Ódio, conhece Tony (Sergio Guterres), justamente quando vê a justiça que tanto acredita não sendo aplicada, igual não foi com sua família, e compra aquela briga.

A relação de Roberto e Tony, inicia confusa e desigual, Roberto teve tudo, exceto a prática da justiça, Tony teve nada, à medida que desenvolve um particular código de conduta. Na pensão de Dona Aracy (Lícia Magna), conhece a personagem queer Vanusa (Fernando Reski), que é fã da banda Secos e Molhados.

Toda à proteção, afasta Roberto que despontava à sua maneira um plano de vingança. Algo paliativo, embora, faça ele aguentar a dor da perda das pessoas que ama, logo em função de bisbilhotar os pertences do protagonista, Vanusa descobre de onde lembra daquele rosto.

Entre a fluidez sexual e de gênero carioca em Ódio, de Roberto, Tony, Vanusa e Diva (Maralisi), os ex-colonos são encontrados um a um. A vingança de Roberto, ocorre pelo agravamento psicológico de quem persegue, e consigo, na teoria e na prática não alcançadas, que tenta continuar vivo.

Com Souza (Jotta Barroso), é o primeiro que Roberto acha, vive desempregado e dependente alcoólico, aumentando por causa do crime. Mora junto da esposa, que tem saúde debilitada pela asma, doença de gota e varizes, apresenta ele medo de ser descoberto, opta ao suicídio.

Na sequência, Léo (Ivan de Almeida) tenta equilibrar as contas trabalhando como soldador, e lamenta ser um dos comparsas que pouco “lucrou”. O lixamento dele por apedrejamento, por mais que também tenha sido praticado por alguns negros, tem motivação racista, o filme considera.

Dependente químico, o traficante Geraldão (Átila Iório), esconde-se na Comunidade de São João, receoso de a qualquer momento ser responsabilizado. Acaba tendo um dos sequenciamentos de cenas mais impactantes, inclusive sua morte, enquanto depara com Roberto.

Melhor sucedido no financeiro, que seus comparsas, Nestor (Celso Faria) foi “articulador” da violência. Talvez, o mais cruel, premedita cada uma das ações, até chegar ao objetivo, estado de graça do dinheiro, aliás abocanhado. O filme Ódio aniquila vez de humanidade.

~ ASSISTA:

Entraves técnicos de efeitos especiais, são solucionados por Antônio Pacheco, na película que forneceu cenas notáveis, às minuciosas externas e internas. Outrossim soube, pensar um dos momentos de industrializações do Brasil, em que deixava de ser rural para mais urbano.

Maldade que paralisa, não resolveu as incoerências do personagem principal, mesmo tendo a chance de seguir em frente, ainda escolhe as feridas do passado. Obsoleto, tornou aquele mundo, onde ele libertava os pássaros das gaiolas das outras pessoas, pouco aplicando à premissa para si.

Fixa investida Liv Lagerblad

#emcasa, Lançamento, Letras

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Ainda a plataforma livro, é um dos mais efetivos modos de encapsular o tempo. Do título, quem cria pode fisgar, quem lê direto para o primeiro ao último signo, mesmo quando a poesia, queira distanciar dessa estratégia em premissa, não um poema, uma série que (des)conduz.

No livro de poemas, Ovípara (2020) de Liv Lagerblad apresenta também a relação panteísta do corpo, não sendo masculino, no mundo que exalta o macho. Em todos os orifícios busca entender a ciranda da dualidade, que faz estas composições poéticas existirem, através dos espelhos.

Poeta e artista plástica, nasceu em 1989 na cidade do Rio de Janeiro, enquanto do livro mais aproxima da poesia escrita. Poupa, entrementes, que uma área e outra possa contaminar o código do poema, por mais haver sintonia, ademais não torna a poesia afastada do prazer da leitura.

Sobretudo, inteira homenagem-paródia aos cânones da poesia brasileira. Rosa de Hiroshima de Vinicius de Moraes, em Meu ar é uma Hiroshima que nasce lenta, página 20, e Poema de Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade em Nascer mais vezes, página 31, além de outras menções de artistas estrangeiros.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Dividido é o livro Ovípara em três partes, a primeira homônima, segunda Corpo-contágio, terceira Antes e depois de agosto. Recupera palavras esquecidas, hábito quase extinto entre poetas da contemporaneidade, sem tornar o poema pedante, tampouco envolto de arrogância incomunicável.

Expressa e comunica, assim: “ Um cacho de uvas tem muito mais uvas más que uvas boas […] ”, página 15. Na primeira ala do livro, é possível perceber certos momentos de contemplação das naturezas mortas, caso o poema necessita do ancoramento ali, depois fornecer outras figuras.

Mais, as três partes podem ser interpretadas como livros autônomos, que não necessariamente estejam dialogando. Visto que aquela a iniciar, os poemas não ofertam títulos, semelhantes aos ovos, apesar de serem muito quebráveis, traz força-motora de proporcionar existência.

Com poucos sinais gráficos e de pontuações em Ovípara, o que tem mais uso pela poeta nesta primeira parte, é a barra, assim o verso está em atrito no próprio espaço comportado. Precisa de outra maneira de ser, aliás novo determinado contexto, que a poesia escrita está resistindo como pode.

Em Corpo-contágio, segundo livro que traz mais poemas bilíngues, a expressão mantém na escolha de palavras do idioma em inglês mais próximas de identificação/ tradução, e causam sonoridade, com o idioma português. Sem parecer, a maioria dos poemas da Poesia Marginal, colagens.

O arcabouço da Geração Mimeógrafo, de certa maneira há nesses poemas, porém pouco valendo do lado blasé de um diferente idioma. Já que não está disposta a impressionar, em contrapartida emociona, quem estiver interpretando, como no poema Te mando aquele fotograma estourado.

Logo, adiante em Ovípara: “ […] está pronto para comprar as próprias cuecas? […] ”, no mesmo poema é suspendido esse questionamento, com imagens e técnicas poéticas, que colocam no dilema cotidiano do eu-artístico, eu-coletivo, em um fim inusitado dentro daquela dimensão.

Parte derradeira do livro Antes e depois de agosto, os poemas ganham um tom mais social, outrossim este tema esteja presente anterior, como o encontro do lugar do corpo não-masculino. Merda, cloaca, sangue viram saída igual para uma infinidade de desgostos no dia a dia.

São encontradas nesses poemas, as influências também de vanguardas musicais, embora não sejam pastiches de canções tropicalistas ou antimúsicas. O poema escrito é mantido, em verso-livre dentro da universalidade, que a própria poeta decidiu exclusivamente em caça da expressão.

“Ai mundo ovo”, página 56, determina o verso de abertura do último poema do livro. Causando dualidade que distende, já autora faz parte de uma época, sem a certeza de nenhuma garantia. Duvidamos de tudo, exceto do magnetismo do livro Ovípara de Liv Lagerblad.

~ ASSISTA:

Da bagagem das artes plásticas, a edição fornece um material gráfico, que coincide com os poemas, porém sem atrapalhar, o destaque da escrita. Em muitas das ilustrações da poeta, percebe orifícios e criaturas aladas, que botam ovos, exibindo entre uma parte e outra suas penas.

Fixa investida Liv Lagerblad na poesia, que pouco esteja buscando comprazimento, e sim, recupera a composição, fazendo releitura de si e de quem veio antes. Ridículo sublime, levanta a autora, no verso que conclui o livro, justo para soltar voos rasantes, com imaginações ora asas.

Lembra da Claudia Wonder?

#emcasa, Música, Queer, Resgate

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )


ARTE: JEFERSON LORENZATO

Atrevimento e coragem, fazem da pessoa que é pioneira, boa parte das vezes incompreendida nas artes – se hoje, diminuiu em função dos meios de comunicação tornarem mais acessíveis. Décadas anteriores, as chances eram nulas, do alcance em um grupo máximo de admirações.

No álbum, FunkyDiscoFashion (2007) de Claudia Wonder encontra um dos poucos registros musicais, dessa artista de múltiplas expressões. Camaleônicas, as 14 faixas apresentam a ótica trans em letras de requinte técnico, além de uma sonoridade que foge de um rótulo datado.

A música em Claudia Wonder vem antes de meados de 2000, nos anos oitenta foi letrista e vocalista das bandas de rock Jardim das Delícias e Truque Sujo, quase sem arquivos sonoros. A canção autoral, Barra-Pesada e o poema musicalizado de Glauco Mattoso, Spik (sic) Tupinik marcam essa época.

Performer, cantora, compositora, atriz, escritora e jornalista, nasceu em 1955 na cidade de São Paulo. Depois da primeira onda de efervescência artística no Brasil, mudou para Europa no fim dos anos oitenta, trabalhando em shows e como empresária, até que voltou na cena musical com álbum solo.


ARTE: JEFERSON LORENZATO

Faixa Atendimento, abre o álbum FunkyDiscoFashion, sem deixar explícito, que tipo de serviço sexual seria feito. “ […] Eu não vou atender deixa isso pra lá/ Já falei com esse cara não quero ficar/ Não entendi muito bem o que ele quer […] ”. Bastante das letras da Claudia Wonder, distendem o subentendido.

Mulher do Balcão, consiste uma música de pista, agregada e na medida, uma presença feminina agente da situação, escolhe quais serão os pretendentes, que beijou e beijará. Champagne e pinga com limão, juntas e separadas, auxiliam em suas escolhas – a mulher cansa de ser caça, para predação.

Título do álbum, a faixa FunkyDiscoFashion, antecede até a corrente do k-pop, que vem sendo popularizada nos últimos tempos. As batidas discos entrelaçadas com funk, resultam em uma canção eletrônica, que acompanha sem rivalizar com a voz da cantora, que por mais não fosse potente, possui encanto.

Em Funk da Frígida, a composição apresenta obscenidade, como impulsionadora do questionamento do prazer no álbum FunkyDiscoFashion. Das pessoas trans, as mulheres neste caso, que cansam de ser apenas objeto do desejo rápido, ou seja de cobrança da frigidez.  

Por sua vez, a canção Saltos vira forma de acertar as contas, de versos sadomasoquistas, quem tanto pisou, está sendo pisado por ela. “ […] Olhe bem para os meus saltos/  Foram feitos para andar/  Mas como eu te ensinei em cima de você/  Eles vão caminhar […] ”, afirma durante a faixa.

Com parceria de Laura Finocchiaro, a música S.O.S é uma das faixas mais eletrônicas, os efeitos sonoros produzidos pelo duo The Laptop Boys, acarreta uma música potente. O próprio título da canção, não deixa de ser uma ironia do amor não vivido, em torno de 2 minutos e 55 segundos.

“ […] Essa é a verdadeira história do ursinho misterioso/  Que teve o seu pedido realizado, mesmo antes de faze-lô […] ”, letra de maior alegoria em FunkyDiscoFashion, Ursinho Misterioso. Calha do primeiro ao último segundo, na materização e pós-produção de Ignácio Sodré.

Diva da Dúvida, Claudia Wonder volta para a situação das pessoas trans quanto reconhecimento do estado. Mulheres da Grécia Antiga são convocadas para dentro da canção, e não à toa, origem da democracia, e conceitos igualitários, o propósito da música é também liberdade de gênero.

Eleito single, no período que foi lançado o álbum, a música Blá Blá Blá comenta de uma relação amorosa. Sem, por outro lado, valer de clichês e lugares comuns, que podem ser inclusive encontrados em canções produzidas do imaginário queer, Claudia Wonder prefere novidade.

De Consuelo Velásquez, Besame Mucho na voz da Claudia Wonder, é uma das melhores interpretações dessa canção que já ganhou desde o lançamento original, incontáveis covers. Acontece, que selecionou outro entendimento que funciona na execução da faixa.

“ Quando eu passo na rua/ Tem sempre um homem que me diz/  ´ Olha meu bem estou na sua, você é a mulher que eu sempre quis ´ […] ”, revela a música Travesti. Canção em estilo rap, que cantora afirma o fato de não ser cisgênero em uma sociedade como a brasileira. Pungente é FunkyDiscoFashion.

~ ASSISTA:

Barulhos de grilos e saltos, iniciam a canção Wonder, de acompanhamento de teclas, Paris através da visão de um táxi passa pela lembrança, mesclada das influencias de Édith Piaf. Além de duas faixas bônus, com remixes de Atendimento e Mulher do Balcão, fecham está esquecida obra.

Lembra da Claudia Wonder? É um questionamento que fica perene, entre várias representatividades. Aludindo artes, precisa-se entender, que para ainda mais força, a compreensão do passado, torna fundamental. Monumentos, e não momentos, (r)existem com bases sólidas.

Desacreditam nos quereres

#emcasa, Cinema, Memória, Nacional

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ARTE: JEFERSON LORENZATO

Em meio ao dia a dia, da pessoa vaqueira e boi, existe uma qualidade de comunicar específica. Sons e barulhos, desprendem todo o momento, na maioria das vezes para fazer aquela massa bovina, a ter um estímulo auditivo, assim realizar o que fora indicado dentro da meta pretensa.

Realçando na vida circundante da vaquejada, Boi Neon (2015) escrito e dirigido por Gabriel Mascaro é um filme sobre mudanças de identidades. Da criança sem atenção, da mulher acumulando inúmeros afazeres, do homem em contraponto da realidade e a prática de um sonho.

Botinas, fivelas, luzes, arquibancadas, outdoores, etc; no longa-metragem por mais que esses elementos apareçam, comumente associados às vaquejadas (atividades em que vaqueiros derrubam bois). Os bastidores desses festivais, surgem sem nenhum glamour, permitindo trocadilho: evita reluzir.  

A equipe dramática do filme tem os nomes de Maeve Jinkings, Juliano Cazarré, Vinícius de Oliveira, Samya De Lavor, Aline Santana, Josinaldo Alves e Carlos Pessoa. Com tempo estimado de 1 hora e quarenta minutos, contando créditos, em que mescla influência do cinema alemão e francês.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Patas bovinas, são detalhadas nos primeiros segundos, como mote da relação da humanidade e animalesco, em consequência posto o tempo todo do filme. Enquanto algumas vozes, no meio do monólogo e dialeto, pedem para aquela espécie colaborar com a manutenção da vaquejada.

Durante a película Boi Neon, espaços de vaquejadas enfileiram. O vazio existencial aumenta do personagem Iremar (Juliano Cazarré), já nesses primeiros minutos na Fazenda Horizonte, após o festejo, busca num lixão de Polo de Confecções do Agreste, farrapos da oportunidade de estilista.

Moda e vaquejada, entram em tácito confronto, percebido nas variações do sotaque de Iremar. Ademais, da equipe que vive com ele, de estrada e estrada, de cansaço e cansaço, de parada e parada, de tédio e tédio, coletivizando com os bois no caminhão guiado por Galega (Maeve Jinkings).

Apesar de ser um filme dramático, não obstante concentra na densidade do gênero convencionado na sétima arte. Extrapola, inclusive, visto que a câmera capta situações repletas de humor, daquela risada banal, e ainda dialoga com variedades de pessoas/ espectadores.

Com direção prudente em detrimento à atriz-mirim Aline Santana, que vive Cacá, uma menina espevitada, a produção quis entendimento das contradições daquele mundo. Da solidão da mãe Galega, do pai ausente, dos colegas de lida, o que mais identifica é Iremar, e dos próprios bois.

Fragmentado o filme Boi Neon, ata de maneira despojada cena a cena, de repente uma dançarina com máscara de cavalo interpõe, conhecida de Iremar, Cacá e da própria Galega. Iremar não engrena como artista, Cacá pouco conhece a figura paterna e Galega mais se embrutece.

As roupas selecionadas durante o procedimento de gravação, passam cuidado com detalhes, que muitas vezes o audiovisual ignora. Acredita na história, sobretudo em uma, do sonho e realidade, no momento que os personagens vestem como participantes que trabalham em vaquejadas.

Na trilha sonora, os acertos continuam, exceto na primeira vez que a dançarina com máscara de cavalo aparece, acompanhada de uma faixa em inglês. Por mais que convença, caso haja leitura, da americanização do mundo, perde um pouco de sintonia com as outras escolhas de canções.

Laboratórios teatrais, refletem em cenas, até aquelas, panorâmicas. Em interpretações amadurecidas, e muitas vezes inusitadas, de Maeve Jinkings e Juliano Cazarré, ainda o núcleo partilhado, encontram vivacidade e relação com o boi que recebe uma tinta brilhante na arena.

Nudes, e cenas de sexo, tiveram enfoques aguçados, nada melindrosos. Entre os personagens Galega e Júnior (Vinícius de Oliveira), bastante pela plasticidade da filmagem, pois acontece de pé à meia luz, do que conteúdo, quando o conjunto de bois presencia. Traz simultaneidade, o filme Boi Neon.

~ ASSISTA:

Já nos últimos minutos, a cena de sexo, em tomada única, entre Iremar e Geise (Samya De Lavor), personagem grávida, vigilante noturna e revendedora de cosméticos, evita clichês brasileiros. Tornando real à maternidade, foge do painel imposto pela convenção do cinema nacional.

Desacreditam nos quereres, as personalidades centrais do filme – a criança, a mulher, o homem. Eis uma certeza, ainda que duvidosa, imputada dos últimos frames, aparecendo o personagem da Cacá, de lado aquele boi brilhante da vaquejada, pode (talvez, é) o mesmo servido no rolete.

Vanusa magnetiza Belchior

#emcasa, Música, Memória, Resgate

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Dedicar a voz para Belchior, não é uma empreitada fácil. Um dos maiores trovadores contemporâneos impunha pra as pessoas que arriscam sua interpretação, um estilo personalístico, em que melodia enrosca com a letra – viva no som, viva na poesia, viva nesse ínterim.

Paralelas de *Vanusa apresenta diferente contorno a respeito da inaptidão, mudança e amor. Em um momento que a cantora buscava distância das primeiras referências musicais, antes lançaram ao estrelato, assim com outras abordagens no que tange atitude midiática e sonoridade.

No álbum, Amigos Novos e Antigos (1975) há resistência ao espaço da mulher na sociedade. Trazendo esta primeira música, de prévio uma versão adaptada à cantora, como espécie de depoimento que questiona posições, enquanto o letrista almejava consolidar dentro do mercado da música.

Durante 12 músicas, que entregam participações como Luiz Melodia, Aldir Blanc, João Bosco e Milton Nascimento. Faz parte das oito, das quais a cantora depara estilizadas versões, além de mais três, que assinou a composição em parceria, entre os títulos: Rotina [Mario Campanha], Espelho [Sérgio Sá]e Vinho Rosé da Rainha Sem Re [Gabino Correa].

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Faixa segunda, do álbum Coração Selvagem (1977) de Belchior, a gravação de Vanusa, uma das cantoras mais influentes do momento, em função de ter acendido através da Jovem Guarda. Antecipou, inclusive, as duas primeiras “belchianas” do imprescindível, Falsos Brilhantes (1976) de Elis Regina.

Já em Paralelas de Vanusa, existe um conflito da interpretação, a necessidade da artista de extrapolar o rótulo de “mulher bonita”, que infelizmente, voga superficialidade. Compositora de músicas como Mudanças [Sérgio Sá] do álbum Viva Vanusa (1979) e Manhãs de Setembro [Mario Campanha] de Vanusa (1973).

Cordas do bandolim, abrem caminho para a música, por meio da voz da cantora nascida na cidade de Cruzeiro, interior de São Paulo, em 1947. 19 segundos, os arranjos proporcionam: “Dentro do carro/ Sobre o trevo/ A cem por hora/ Oh!  Meu amor! / Só tens agora/ Os carinhos do motor […] ”.

Dirigindo, a interpretação de Vanusa compara de Eu Sobrevivo, versão de Paulo Coelho, à I Will Survive de Gloria Gaynor no álbum Vanusa (1981), ao passo que entende os rumos desta música, desta vida. Na velocidade acima da média, tenta percorrer os incômodos emocionais, que a letra, sem pormenores buzina.

A estrofe seguinte de Paralelas, bastante típica as imagens fornecidas por Belchior, Vanusa concede uma face da mulher que trabalha no escritório. Manejando uma empresa, que torna rentável, em contrapartida o amor, diminui cada vez mais, arranca motor ora bandolim.

“ […] Em cada luz de mercúrio/  Vejo a luz do teu olhar/ Passas praças, viadutos/ Nem te lembras de voltar […] ”, por artifício da voz de Vanusa, a composição cede localidades. Iluminações dos outros automóveis, semáforos, postes, etc – procedentes da urbanidade, conquanto todas às opções.

Gradação vermelha é associada ao alimento e amor, em Paralelas a voz de Vanusa enternece, pelo sugerido, como na qual é compositora, música Você depende [Mario Campanha] do álbum Vanusa (1974). Tem um endereço, cidade do Rio de Janeiro, avistando Corcovado, Copacabana, flores, asfaltos.

Os arranjos musicais atingem, uma sensação parecida, dos pneus em contato com a malha de trânsito. A voz de Vanusa admite cada vez mais problemáticas – as palavras carregam à medida que são cantadas. Uma fuga de si, não adianta, ao constatar isso, letra regressa surpresa.

Sem estradas, sem paralelas, sem perspectivas, apartamento torna o lugar de esconderijo, das coisas arquitetônicas e vividas. Número oito, interminável vertical, não reduz a vontade de abertura da vidraça, e grito, quando o mesmo carro ou outro: “ […] Teu infinito/ Sou eu!/ Sou eu!/ Sou eu! […] ”.

Agressividade a partir dessa ocasião encaixa na letra, deixando visceral. Já que nem a fuga pela cidade, e muito menos da residência satisfizeram, assim os arranjos musicais aumentam em um rigor orquestrado pela produção de Ramalho Neto. Vanusa relampeja em Paralelas.

~ ESCUTE:

Entre os últimos segundos da faixa, as silabas despendem da interpretação de Vanusa, percebe um dos registros sonoros de meticulosa elaboração na história musical brasileira. Traduz a cantora, temporadas difíceis, assim como a maioria das letras de Belchior, que agregam múltiplas profusões.

Vanusa magnetiza Belchior nesse contexto da MPB, em que a própria interpretação, produção, distribuição e patrocínio reconheciam importância de um acordo da música e poesia. Popular e sofisticado, podem e quando querem, entram em sintonia, agora sorte de quem busca para consumir.

< A cantora Vanusa faleceu vítima de insuficiência respiratória em 2020. >

Expressamente tropeça

#emcasa, Cinema, Música, Memória

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Bem versus mal, o melodrama exige, quase que como uma obrigação para aquela história ser narrada. No audiovisual brasileiro, os ingressos de maior procura, sempre foram destinados às produções que carregam essa característica, de onde o sentimentalismo chega testar a paciência.

Com ares folhetinescos *O Ébrio (1946), filme de Gilda Abreu, vale por algumas cenas de influência do cinema expressionista alemão. Mesmo com a música homônima de Vicente Celestino, a produção envelheceu cambaleando por causa de abordagens moralizantes e clichês.

Ainda não desvale o pioneirismo da diretora, que foi uma das primeiras presenças da história do cinema nacional, a ter carreira continuada. Filmando e roteirizando, à proporção que peças e radionovelas, também os longas-metragens Pinguinho de Gente (1949) e Coração Materno (1951).

Dos cantores mais conhecidos da década de trinta, Vicente Celestino trabalhava no teatro. Além de interpretar, compositor criou, as músicas Porta Aberta e O Ébrio, condutoras dessa história adaptada pela direção, que ele assina o texto teatral de mesmo nome.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Sobretudo música do que argumento, o filme começa avisando das várias edições de cenas remasterizadas. Fator que faz O Ébrio ser uma “colcha de retalhos”, ou seja película produzida no Brasil pós Segunda Guerra Mundial, em cada período, recebeu acrescimento de alguma tomada.

As atuações mambembes, boa parte de maneira proposital, detêm o riso fácil do público. A história concentra no personagem Gilberto Silva, protagonizado por Vicente Celestino, vindo com grande inocência e sem recursos para uma metrópole, não teve ajuda da família, e acaba vagando na rua.

Nos primeiros segundos, a voz em off sofre um revés da sonoplastia de Luiz Braga e Alberto Viana, confundindo se é do próprio Vicente Celestino ou outra pessoa. Até algumas captações de sons em cenas entre Gilberto e o padre Simão, Victor Drummond, ficam meio inaudíveis.

Após interromper os estudos de Medicina, paróquia de calorosos braços acendidos, Gilberto participa dum programa de rádio. Lá apresenta a música Porta Aberta, para uma plateia abarrotada de pessoas negras e pardas, dos raros acertos do longa, que não tentou embranquecer o Brasil.

Referente à etnicidade, gênero e sexualidade, a película O Ébrio fica no pensamento medíocre – reforçando preconceitos. Desde personagens negros, infelizmente só como serviçais dos brancos, mulheres sem nenhuma autonomia, e orientações fora da heterossexual, quase nem cogitadas.

Através do prêmio, e da fama meteórica, Gilberto torna médico e ao mesmo tempo cantor, quase na metade do filme, deixa a companhia diária do padre Simão. As artificialidades das psiques aumentam, percebendo divergência da direção e assistência, em cada uma das cenas seguintes.

Caridade, casamento, traição, e morte, desemboca O Ébrio à medida que conhece mais os personagens. Rêgo, José, Leão, Maria das Neves, Lindosa, Maricota, e sua consulente e outrora enfermeira Marieta, Alice Archambeau. Mais à frente, morando em um “castelo”, que nenhum médico e cantor no país custearia, a funcionária Salomé.

O caso engrena entre Marieta e José, Rodolfo Arena, depois que o mesmo convence a Lôla, Julia Dias, a participar de um batido plano. Vicente Celestino, fica mais piegas e a partir desse momento chavões ardem, que o filme perde a dinâmica inicial, entrando em câmera lenta.

Troca de identidade de Gilberto, a leitura do testamento, das cenas de abusos domésticos que ao invés de problematizarem tornam reforçando, da fuga do José com toda a quantia que conseguira furtar, do arrependimento partilhado por Marieta e Lôla. O título da música e filme faz jus.

Desconsiderando (se for crível) os inúmeros problemas conceituais, uma música pode tentar salvamento de uma produção inteira. Caso existe algo que acode este filme está nos minutos, que Vicente Celestino pega o violão, e começa a cantar O Ébrio, a direção de Gilda Abreu resplandece.

~ ASSISTA:

Logo esquece, o dono do boteco, que não podia faltar dentro da lista de clichês, ser um migrante português de bigode. A música oferta toda uma interpretação, facilitando, até mesmo a cena que Marieta busca desculpa de Gilberto, e o longa-metragem encaminha ao término.

Expressamente tropeça O Ébrio por falta de unidade de registro – desde as locações que não passam realidade na história, os nivelamentos de núcleos, as vozes radiofônicas da equipe que atuava, os excessos de tiques faciais, relembrando o cinema mudo. Um entreter na época já perecível.

< Na volta da programação de filmes antigos, o canal americano TCM exibiu O Ébrio em 2020 >.

Agem essas fisionomias

#emcasa, Artes, Memória

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

O trabalho operacional, não é mais restrito às fábricas, ganhou nas décadas anteriores, formatos diversos. Ressalvando algumas vezes, a remuneração desses trabalhadores, continua precária, e talvez com o advento maior da tecnologia, ou seja virtualidade aumente progressivamente.

No quadro de dimensões, 150 X 205, Operários (1933) de Tarsila do Amaral apresenta um observar de uma classe perante a outra. Já que a pintora, baseia no fato do pictórico, não sendo dentro do quadro, em determinado estado de sublimação, de quem aprecia, e o grupo ali presente.

Conhecida, por ser uma das mentes mais famosas do movimento modernista, encabeçado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia (isto é, grupo dos cinco). No período, que a pintora compôs, esta obra colhia os projetos, dos primeiros anos de atividades nas artes.

Travados os anos iniciais, Tarsila do Amaral buscava uma linguagem imagética aproximada com o folclore brasileiro, entre acertos e descomedimentos. O período sobrevindo na década de trinta, foca entender o maquinário urbano, logo São Paulo, estado em que nasceu em 1886.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Operários, consiste em um quadro tridimensional, não priorizando essa técnica, à medida que os detalhes das pessoas trabalhadoras proporcionam lâminas de biografias e fatos. Mulheres, homens, de idades, de origens diferentes, particularizam cada história, que contempla à visão da pintora.

Ascendência indígena, africana, judia, asiática, europeia, árabe – assim, união de todas essas e mais culturas, tornadas brasileiras, olham para defronte. Todos povos de lábios fechados, quase demostrando tristeza, ora exaustão de um costume, que corrobora ao absorvimento da usina.

Desordem do efeito cascata ocorre, quem sabe de maneira proposital, para não conseguir uma contagem exata.  Enquanto as fábricas nas costas, causam um peso conjunto maior nos ombros, não é possível calcular os números, e de certa maneira resultado, de suas íntimas particularidades.

Pode levantar algumas conjecturas, dos racismos para pessoas negras, o machismo para mulheres, a homofobia para comunidade que sempre povoou as manufaturas. Chãos de fábricas imaginários, os acontecimentos não, em necessidade esboçam o quadro, que acarretam interpretações.

As olheiras crescem naquelas faces em Operários, cada vez mais, a visão aperta, os limites do quadro tornam outros. Do observar aquele grupo, tão multifacetado, como constitui o próprio Brasil. Ademais em cada rosto de trabalhador, uma minudenciada, proporciona universalidade.

Já das fábricas, as chaminés de mesmo tipo de padrão chegam em um número. Seis delas, uma ainda cospe fumaça, produzida por aquele grupo social, e que atinge seus aparelhos respiratórios, externos e internos – mesmo no descanso reles para o outro turno, ficam enfermos.

Por mais da ocupação na rua, não existe certeza se estejam em um protesto, ou voltando para suas casas. Caso sabem, ou preferem ignorar os direitos trabalhistas, que começavam a despontar no período, apenas continuam andando, com grande vagar para às próprias intimidades.

Boinas, turbantes, óculos, alguém quase no centro do quadro olha por detrás de umas lentes. O que será que esteve lendo? Estaria ciente das notícias de sua época? Consegue distinguir um boato da informação? Operários, não é um quadro que se vale das garantias, e sim, desabonos.

Os turbantes podem confirmar de quais etnicidades pertencem? Trabalham nas fábricas ou visitam? As boinas, por sua vez, protegem de eventuais acidentes, pelo menos dos raios solares, dos suores nos olhos, um subterfúgio da calvície, enquanto saem de uma escala e outra.

Das janelas, ao fundo, as chaminés “gratificam” fuligens, que nos últimos anos não apenas teve o tamanho acentuado em São Paulo, como vem prejudicando o dia a dia urbano, além do meio ambiente. As pinceladas de Tarsila do Amaral validam contradições do elemento humano.

~ ASSISTA:

Raras pessoas com idade mais avançada estão em meio dessa massa jovem, seus olhares, de outro modo, não mais encaram com tanta vivacidade. Quase como em um movimento vicioso causado pelo Fordismo, e que muitas fábricas atuais, em volta do mundo permanecem mantendo à risca.

Agem essas fisionomias em Operários, na sobrevivência, que a pintora Tarsila do Amaral, trouxe para arte. Com alento crítico, e ao mesmo tempo, conseguindo um efeito que enternece ao que tange a humanidade, contrapartida do mecanismo – triturador de gente.

Que difunde Jair Rodrigues

#emcasa, Música, Memória, Nacional

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

O rap, no Brasil, sempre teve samba. Pouco difere, do próprio samba, que apresenta o lado declamatório. Sambista e rapper, de modo geral enfrentam dificuldades econômicas e sociais, para testificarem as canções de suas interpretações/ autorias, no ouvido, e na boca, do povo.

Deixa Isso Pra Lá de Jair Rodrigues, cantor que despontou no início dos anos sessenta, associado à primeira onda de música que impulsionaria o rap. Provou não haver desdouro, de ir além de um gênero musical, misturou não só dançando com as mãos, determinadas fronteiras da MPB.

Aparecendo no álbum, Vou De Samba Com Você (1964), esta canção trazia aos ouvintes, não habituados às batidas do rap. Uma sonoridade, fora de qualquer norma, que de maneira habitual, submetem a população brasileira de época em época, não abatida de ser calejada.

Com produção de Alfredo Borba, a gravadora Philips, apostou em um talento, que rendia inúmeros dividendos naquele mesmo ano. Tanto é, um compacto, espécie de ep do período, cruzara o Oceano Atlântico, vendendo em Portugal.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Sétima música do álbum, que teve nomes como Vinicius de Moraes, que era um dos mais cotados nos projetos daquele interim, Deixa Isso Pra Lá  contém composição de Alberto Paz e Edson Menezes. Tornando a música mais lembrada do cantor Jair Rodrigues, durante sua carreira.

Namorico tapeado, de conversa, abre a música, de suingue ao passo que critica, não estabelecendo um gênero, a quem seja enunciada. Levando em conta, que na história da música brasileira, em geral prefere, repetir clichês relacionados às normatividades.

Compasso em frenesi, os instrumentos de sopro e o reco-reco, ampliam à percussão do registo original. Devido ao fato do compositor Alberto Paz, ter o posto de tocador de pandeiro, no grupo Anjos do Inferno ao passo que Edson Menezes carrega o gingado para letra.

Por volta de sete segundos, o cantor Jair Rodrigues, começa a dar vida a canção, que até naquele momento, não chegara aos ouvidos das outras pessoas. E foi longe, a faixa, das rádios, para outros países, assim continua sendo interpretada por inúmeros artistas da história da música mundial.

Ocorre, que com Jair Rodrigues, na gravação de Deixa Isso Pra Lá, que ainda rotaciona, em alguns vinis sobreviventes, os versos: “ Deixa que digam/ Que pensem / Que falem […] ”. Entrementes, assopram uma forte melodia, logo mais samba, nessa faixa, do que rap, a rebeldia prevalece de ambos.

De maneira proposital, em voz baixa Jair Rodrigues aumenta aos poucos o tom do bate-papo, não chega aos gritos. Seduzindo, já que as duas vertentes musicais exigem, a letra fala do amor, redobra para um carinho quase adolescente – e meiguice lá tem uma idade?

Em contradição, talvez como seja a vida, Deixa Isso Pra Lá egressa ao reco-reco e instrumentos de sopros, quiçá um triângulo com timidez, do engenheiro de som Carlos de Assis Moura e técnico de gravação Rogério Gauss, conseguem otimizar dentro de um álbum, que destaca essa faixa.

Antes das turnês para Japão, Europa e Estados Unidos, a canção em si exprime, ainda uma interpretação comedida de Jair Rodrigues. Décadas após, a faixa seria, cantada várias vezes, e a musicalidade ganharia outros elementos, como desta gravação, ligados mais ao rap-brasileiro.

“ […] Eu não estou fazendo nada/  Você também/ Faz mal bater um papo/ Assim gostoso com alguém? […] ”, através desses versos informais, lápida Jair Rodrigues. Além de vangloriar, o jeito ocioso, que apreende-se a ter por estas bandas, quando aperta o desemprego.

Ora empregando, vai desencadeando, está faixa, a situação do carinho, cada vez mais declamada, caso menciona ou não do amor, e de todo tipo de amor, ganhou novos significados com demais interpretações no decorrer da MPB. Sinaliza à mudança, Jair Rodrigues.

~ ESCUTE:

E na última repetida, o cantor brinca como se estivesse ofegante, chamando para uma conversa particular que aplica:  “ […] Vem balançar/ Amor é balanceio, meu bem/  Só vai no meu balanço quem tem/ Carinho para dar […] ”. Assim confirma os versos de Deixa Isso Pra Lá.

Que difunde Jair Rodrigues, talvez uma das músicas mais atemporais já cantadas no idioma português. Trazendo uma poesia, nada rebuscada, ademais repleta de técnicas linguísticas que emocionam. Arte precisa exercer alvoroço, sobretudo musical, e não, traumatismo.  

Semelhanças que incendeiam

#emcasa, Artes, Hqs, Lançamento

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

As grandes cidades não acolhem todas diferenças, das pessoas encarnadas, e desencarnadas. Com mais tecnologia, nesse sistema, vários grupos sociais batalham por qualidade de vida – exemplo, as manifestações cada vez mais frequentes de profissionais uberizados em prol de direitos trabalhistas.

Na história em quadrinhos, Fogo Fato (2020) de Aline Lemos advém mobilidade urbana e virtualidade, e seus desdobramentos, como as questões sociais e os pés nas ruas. Em uma atmosfera cyberpunk feminista, sem imitação das estéticas estrangeiras, tendo perícia em trazer elementos brasileiros.

Nascida em 1989, na cidade de Belo Horizonte, Aline Lemos também assina suas obras como Desalienada, desde meados da década de 2000 produz publicações independentes e fornece oficinas. A estreia no universo do imagético, veio com o livro Artistas Brasileiras (2018), em que recebeu o prêmio HQ Mix 2019, na categoria Homenagem.

Com esta trajetória, levou para seu primeiro trabalho de maior fôlego, contendo oitenta páginas, uma história que busca dinamitar inúmeros clichês, sobre as cidades e seus habitantes, do dia a dia de hackers, talvez pensando na proposta de uma alusão do novo e antigo.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Fogo Fato situa a grande e fictícia cidade de Limiar, que traz muitas referências arquitetônicas de Belo Horizonte/ MG. Vias, viadutos, prédios antigos em contraste com a verticalização perene desta capital – trânsito, que invade o espaço de locomoção de moradores e visitantes.

O casal de hackers, Vitalina e Cristal, que geralmente se tratam com apelidos afetuosos, como Mina e Cris, vivem em um mundo entre o desencarnado e encarnado. Cris, que tem o gênero-neutro continua no mundo físico e em contato frequente com Mina de gênero feminino.

Ambas, interrompem seu cotidiano, em função de investigar vários incêndios que vêm acontecendo no último cemitério da cidade de Limiar. E como a empresa Ultra Gestão & Tecnologia, que tem o cartel total, está envolvida com a circunstância, ao invés de procurar ceder conforto.

Talvez um dos principais acertos da narrativa de Aline Lemos seja não apostar no convencional, desde como formata o que será contado. Embora em alguns momentos, possa às vezes buscar um demasiado fluxo de consciência, que no fim das contas se encaixa na história, de influências da ficção cientifica.

Em técnica, Aline Lemos mais tem a oferecer em Fogo Fato, foge de uma quadralização e ordenamento de falas da hq que foi convencionada. Não segue a estética do desenho americano, mesmo que em algumas vezes, quase volta praticá-lo, decidindo por um caminho autoral.

A escolha tipográfica dos balões que sinalizam as falas, consiste em uma dimensão à parte. Em alguns momentos observam-se letras do computador, outras da própria quadrinista, quando não mistura as duas, para causar um efeito gráfico, que acerta, logo proporciona um clímax em cima de clímax.

No que vale, por primar a linguagem coloquial da população mineira, move elementos dialetais, que comunicam. Entrementes, rejeita o lugar-comum, afinal suas personagens, representadas na localidade, possuem um jeito específico de expressarem pelo idioma, ou seja pensarem.

Talvez nos únicos momentos que a hq Fogo Fato, perde um pouco a malemolência, seja quando a artista recorre aos termos identitários e abreviaturas. Por mais que priorize à fidelidade de sua estética desenvolvida – confunde o público não habituado a empoderamentos e códigos.

“ […] Os fantasmas sonham com ovelhas assombradas? […] ”, neste insight com carga figurativa. Privatizações, especulações imobiliárias, vigilâncias de consumo, invisibilidades sociais, comportam esta mesma fala. Até instantes de conversas, das grandes cidades brasileiras, e no mundo.

Cris e Mina, casal que quebra tabu, vai até o cemitério buscando um fato incriminador à Ultra Gestão & Tecnologia. Limiar, está em seu limite não restrito ao próprio nome, também habitacional de encarnados e desencarnados. Eis Aline Lemos personaliza a tipografia da hq.

~ ASSISTA:

Em Fogo Fato, ocorre trocas de beijos, em que o recurso de técnica, passa realidade qual esteja desencarnada e encarnada, além de ser considerado um relacionamento inter-racial. Justapõe, por consequência, tratamento verídico ao enredo que sucede no Brasil de múltiplas cores e raças.

Semelhanças que incendeiam as grandes cidades, cada vez mais plasmadas/ dependentes da “luz” tecnológica, e um simples passeio, inclusive no cemitério vira exercício para se manter em vida ou morte. Com transportes acessíveis ou não, a hq aponta, para continuar andando.

Assim encara Alcione

#emcasa, Música, Memória, Nacional

| DIOGO MENDES | ( @diogmends )

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Representar amores, sobretudo os desencontrados, permeiam os panoramas das artes brasileiras, que nunca esconderam tendências sentimentais – e pouco é diferente ao que tange musicalidade. Ao compreender uma faixa, esbarra-se em imagens e casos, havendo sua frequência garantida.

E Vamos à Luta (1980), sexto álbum, da cantora e compositora Alcione proporciona a emoção do amor a favor da constância diária. Com 12 faixas, e de parcerias conhecidas e perpetuadas nos anos seguintes, constitui memorável, na época que a artista mais aproximava ao samba de gafieira.

Se hoje a cantora Alcione, ficou mais famosa na linha romântica, em idos da década de oitenta migrava à estilística do próprio som. Além da capa emblemática de Aldo Luiz sob fotos de Alsemo Elias, e talvez uma das mais bem produzidas da intérprete nascida no Maranhão em 1947.

Iniciando o álbum, a faixa Quadro de Ismael de Carlos Dafé e John Lemos, apesar da associação ao pintor Ismael Nery. É de outro Ismael, que a música em gingado meio abstrato toca, citando presenças relevantes e conhecidas no samba, dentre os nomes, estão João Nogueira e Elza Soares.

ARTE: JEFERSON LORENZATO

Ocasiona toda uma pieguiceem E Vamos à Luta, a interpretação de Alcione na música, Não Me Fale das Flores de Chico Roque e Paulinho Rezende, que convence dentro do repertório. Os instrumentos de sopro marcam presença – embora a voz da cantora seja de modo habitual destaque.

Letra de Gonzaguinha, que esbanja lucidez, a canção título do álbum, E Vamos à Luta é ainda mais atual na dramaticidade de Alcione: “Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão/ Eu ponho fé é na fé da moçada / Que não foge da fera e enfrenta o leão […] ”.

Mais brasileira impossível, em E Vamos à Luta, a música Deus Lhe Ajude E A Mim Não Desampare de Vevé Calazans e Nilton Alecrim, Alcione improvisa nas vogais, mesmo que não salve, os arranjos datados, muito menos o coral de apoio. A voz da cantora realiza um efeito para transitar nessa faixa.

A Ponte de Elton Medeiros e Paulo Cesar Pinheiro, constitui um dos registros fonográficos mais de acordo com o talento de Alcione. Já na letra percebe-se imagens dimensionadas, o instrumental teve um aporte favorável, enquanto a cantora capricha no enfoque boleiro-jazz-samba.

Em Meu Dia de Graça de Dedé da Portela e Sérgio Fonseca, os tambores de Marçal Filho, Zé Belmiro e Almir de Neto, harmonizam com o coral, evocando à informalidade do samba. A atmosfera da música quase fornece uma espécie de capela da Alcione, através do cavaco de Zé Menezes.

Não ficou restrito ao tempo, apenas por causa do timbre de Alcione, a faixa Circo Sem Lona de Antonio Carlos Jacofi, que trouxe um ar meloso para E Vamos à Luta. Válidos, os primeiros versos da música – depois acentuam clichê e mais clichê, que a interpretação suaviza carregando nas costas.

Cheguei Tarde de Tião Motorista, óbvio pseudônimo, acarreta uma salva de palmas aos arranjos musicais, que deixaram a voz de Alcione mais chamativa. Adiante, a letra inusitada, conta sobre um encontro regado por samba, existem também os diálogos dos participantes na música.

“Pra me fazer chorar/ Todos os dias você mata minha alegria/ Só quer brigar […] ”, atesta o boleiro enroupado de samba, Retratação de Reginaldo Bessa. Logo volta Alcione: “ […] Prazer incontido de ver meu desgosto/ É muito fácil magoar […] ”, embasada dos arranjos de Ruy Quaresma.

Tendo participação do sambista Cartola, Eu Sei é um dos duetos, antes de serem chamados de feats, da cantora Alcione que mais marca. De voz específica, o dono do restaurante Zicartola, um dos locais mais badalados do Rio de Janeiro, comenta através da letra autoral a respeito do erro e acerto.

Berimbau apimentado, letra quente, referências às religiões afro, a faixa Olerê Camará de Paulo Debétio e Joel Menezes, consiste empoderamento. A cantora acerta na interpretação em todos os 3 minutos e 5 segundos. Sambista da emoção trilha e retrilha o próprio ambiente, Alcione.

~ ESCUTE:

Resumo de Roberto Corrêa e Sylvio Son, música de arremate do álbum E Vamos à Luta, retorna às nostalgias e dilemas da infância no Norte/Maranhão. Nos minutos finais, faz referência do poema Canção do Exílio do autor Gonçalves Dias, procurando nos coqueiros as reminiscências.

Assim encara Alcione em seu principal álbum que mais tem coerência no decorrer de faixa por faixa. Manejando os componentes da cultura brasileira ao passo que estiliza os formatos do samba. Garante, portanto, a música título da coletânea: “ […] Que não corre da raia a troco de nada […] ”.